sexta-feira, 25 de outubro de 2013

"Um compositor não existe sem um ouvido" - Papo com Jair Oliveira .

Apaixonado sempre pela música, e arte brasileira, Jair Oliveira, conversou ontem com o “A arte na face” para falar um pouco sobre seus mais de 30 anos de carreira, projetos e concepções. Nascido numa das famílias mais importantes da música brasileira, o músico, compositor e produtor Jair Oliveira, não sabe responder exatamente quando a paixão pela arte musical adentrou seu ser, já que passou toda a infância observando as atividades musicais de seu pai, Jair Rodrigues, dentro de sua casa. Soube por seus pais do interesse que sempre demonstrou pelos ensaios e conversas de Jair Rodrigues com outros músicos e compositores, além de se interessar muito pelo que ouvia nas rádios e discos que seus pais mantinham em sua casa : Desde os 5 ou 6 anos eu já sabia que eu gostava muito de música e por conta disto acabei começando minha carreira cedo, meu pai percebeu isto cedo e então comecei a estudar música, fazer aula de violão e minha mãe (Claudine Rodrigues) sempre me incentivou a estudar , então eu sabia que a música já estava em minha vida desde muito cedo...
Seu primeiro trabalho musical, foi na canção “Deus Salvador”, que está no álbum Jair Rodrigues Oliveira, de seu pai, com quem teve então seu primeiro dueto, a partir de então Jair nunca mais parou de trabalhar com a música. Em 1982, Jair participou do Festival de San Remo, na Itália, com a música “Io e Te” , que rendeu um emocionante videoclipe. Foi então convidado a ingressar no famoso grupo infantil: Balão mágico, ficando conhecido pelo público brasileiro como Jairzinho, apresentando com colegas de grupo o programa matinal da época: Balão Mágico. Jair esteve no balão mágico até o ano de 1987 e com o fim do grupo ainda participou de inúmeros projetos infantis, entre eles um disco com sua antiga parceira de “Balão” Simony.
Balão Mágico
Embora nunca estivesse em seu ser abandonar a música, Aos 17 anos de idade, como todo Jovem da sociedade brasileira, Jair preocupou-se em também ter uma profissão “mais tradicional”, muito cobrada socialmente, visto que na época não havia no Brasil cursos de músicas mais diversificados, Jair decidiu iniciar ingressar então no Jornalismo, para viver a experiência de um vestibular,  frequentando um semestre incompleto na USP, com a desculpa “inconsciente” que o curso auxiliaria seu trabalho de compositor, já que criava canções desde o início de sua adolescência, e o jornalismo também mexia com “a palavra” , podendo assim aprimorar sua forma de escrever suas canções e de se comunicar. Jair então entendeu que estava entrando num caminho “cheio de curvas para entrar num objetivo”, como ele mesmo diz, e acabou abandonando a faculdade e seguindo ao seu foco principal “a música”. Com o apoio da família mudou-se para Boston e ingressou na Berklee College of Music, uma das melhores faculdades do ramo, para lutar pelo objetivo de permanecer na música.
Acredita que a experiência em Berklee College of Music, auxiliou na sua evolução como pessoa e músico, já que pela primeira vez ficava longe de sua família, tendo que aprender a ser mais independente, longe também dos amigos e numa cultura totalmente diferente da brasileira, além de conhecer músicos de todo o mundo, com quem pode trocar experiências significantes para aprimorar a própria música.
Quando questionado sobre sua evolução artística, e as diferenças entre seu primeiro álbum solo, “Disritmia”, e o último álbum lançado oficialmente, Sambazz, Jair informa não notar tanta diferença em seu estilo e criação, mas assume a lapidação que houve nestes anos em seu trabalho musical:
“talvez o público possa dizer mais... Para o compositor acho que existe uma evolução, é como se você crescesse, se desenvolvesse durante a vida e quem te vê crescendo é que percebe mais as diferenças, para a própria pessoa é um pouco difícil, acredito que o “Disritmia” tem um pouco da energia da juventude e da experimentação , foi o meu primeiro disco autoral, e acabei reunindo quase tudo que  aprendi na “Berklee”, com outras coisas que aprendi durante os anos que aprendi tocando no Brasil a noite nos anteriores ao álbum, tocando ao lado dos “artistas reunidos” , “Grooveria” , e peguei toda esta energia e tentei colocar no Disritmia, uma coisa mais crua, menos lapidada, e com a experiência do tempo, você vai fazendo outros discos..., e do “Disrtimia” até “o 2011” (álbum lançado virtualmente) foram vários trabalhos de experiência, teve  o “Outros” , depois o “3.1”, depois o “Simples” , depois o “Ao Vivo”, depois o “Samba me cantou” (Ao lado de sua irmã Luciana Mello) , depois os “Grandes Pequeninos” e depois o “Sambazz”, então foram vários trabalhos, vários anos de experiência, e nesta experiência, você vai lapidando, você vai alterando algumas coisas, mudando alguns conceitos, algumas partes pra melhor, outras talvez pra pior, porque na juventude tem coisas interessantes que você consegue aproveitar e depois com a experiência você acaba perdendo, que é esta coisa até da ansiedade que muitas vezes colabora, e outras você melhora, e a ansiedade vai embora e traz no lugar uma experiência, uma calma, que muitas vezes acaba sendo mais bacanas... Mas no núcleo básico, acho que eu não mudei
muitas coisas, os meus trabalhos sempre tiveram esta característica de misturar estilos , a música brasileira, principalmente o samba, com o Jazz, o Soul, então não vejo uma mudança enorme... Talvez porque uma das marcas de minha carreira tem sido a coerência, coisas nas quais eu realmente acredito, nunca fui um artista de sair atirando para todos os lados para acompanhar o sucesso do momento, sempre fiz aquilo que eu acredito independente da dificuldade de transformar isto em sucesso, então quando ouço meus álbuns, um dos aspectos que consigo identificar é a coerência, sempre tentei ser uma pessoa coerente em relação ao meu próprio trabalho...”
Outro ponto discutido na conversa, foi o sucesso dos “Grandes Pequeninos”, projeto que ao lado de sua esposa, a atriz Tania Kallil, criou em 2009 para homenagear a sua filha mais velha Isabela, com músicas educativas... O projeto chegou a ganhar inclusive uma adaptação teatral infantil na época. Questionado sobre o lançamento da edição “2” do projeto, agora para homenagear a caçula Laura” , Jair confirmou que tem estado ativo na produção do álbum e ainda na criação de uma série de “TV” chamada “Grandes Pequeninos”, que deverá entrar no ar em “2015”, entretanto para isto é necessário a análise de algumas questões especificas, como uma organização maior do site para que seja algo mais familiar, porém tem trabalhado firme no DVD, e em seu conteúdo digital, tendo o projeto ocupado grande parte de seu tempo e coisas “bem legais” sendo preparadas...  Sobre uma nova adaptação teatral para o novo projeto, explicou que depende também da disponibilidade da esposa para a elaboração, visto que o projeto também é dela:

“A peça não depende muito só de mim, pois o projeto é do pai e da mãe, e a Tania tem que acabar a novela que ela está fazendo (Joia Rara), e como ela acabou emendando as 3 últimas novelas, então a gente ainda não teve tempo de pensar no espetáculo, talvez com o final da novela, se não aparecer outra emenda para a Tania, a gente vai pensar no espetáculo... A expectativa é que a gente consiga lançar o disco, e talvez um outro musical teatral no ano que vem...”
Outro ponto abordado, foi o tão esperado DVD “Jair Oliveira, 30 anos” , que de acordo com ele, tem demorado mais que o esperado devido a característica de um projeto mais audacioso, já que a ideia inicial ,seria de apenas lançar em DVD o show que fizera em 2011 em comemoração aos seus 30 anos de carreira, entretanto a ideia foi crescendo e nela entrou um documentário, e este documentário acabou atrasando o lançamento , já que um documentário requer um cuidado maior, como captação de depoimentos, outras imagens, além do trabalho da produtora do DVD e também da S de Samba (produtora que tem em pareceria com João Baptista, Dimi Kireeff e Wilson Simoninha ), que tem tido também grande aumento na demanda de trabalho :
Ficou de um jeito muito bacana, muito bonito, e acho que vai valer a pena a espera, porque talvez seja um dos projetos mais bonitos de minha carreira, ficou realmente muito especial, e finalmente a gente tem uma data de lançamento já acertada, que será Janeiro ou fevereiro do ano que vem...
Com o pai (Jair Rodrigues) e a irmã (Luciana Mello)
Jair também falou de seu trabalho como produtor musical, que aliás tem sido muito bem sucedido, e lamenta o fato de poucos conhecerem o real trabalho e a função de um produtor musical,  que é muito pouca valorizada no Brasil e de extrema importância, já que é o responsável de fechar todos os pontos de um trabalho musical, contou ainda que o maior objetivo da criação do livro que escreveu para acompanhar o álbum Sambazz, tinha como objetivo principal explicar ao seu público o todos os passos de uma criação musical, desde sua composição, sua produção e lançamento... Mostrando que o produtor ainda é um artista... E explica que quando está produzindo, acaba se colocando no lugar de produtor, que é diferente da posição do artista produzido, já que o produtor as vezes precisa ter uma visão um pouco mais ampla do projeto todo já que ele é como um diretor cinematográfico na música, já que é o responsável por orientar o artista, autorizar arranjos, todas as partes necessárias para uma boa conclusão do trabalho.
Sobre as pessoas que ainda o conhecem apenas por “Jairzinho do Balão Mágico”, Jair conta não ficar chateado com tais pessoas, mas mostra insatisfação pela forma que a arte musical chega até estas pessoas, que orientadas pelos grandes veículos de comunicações e adaptadas a conhecerem apenas o que a mídia mostra, acabam não conhecendo não só o seu trabalho, mas também o trabalho de muitos outros artistas de ótima qualidade não divulgados pela mídia, que entende que devido a isto é comum as pessoas lembrarem da época em que estava constantemente na mídia apresentando o “Balão mágico “ . E complementa que não tem nenhuma pretensão que todos conheçam seu trabalho... Mas admite que as pessoas poderiam buscar mais independência mediante a TV, que está carente de programas musicais, e pesquisar mais outros meios de comunicação: Como a internet, que possui acesso mais democrático a várias tendências da música brasileira.

A pauta da entrevista segue então para o lado compositor do artista, Jair diz sentir orgulho do alcance que seu trabalho tem na vida das pessoas, porém não consegue ter uma exata compreensão da real inserção de sua poesia em seus fãs e seu papel de compositor, já que sua obra já esteve presente, tanto compositor quanto como produtor, em vozes como: Ed Motta, Ney Matogrosso, Tom Zé, MPB-4, Jair Rodrigues, Vicente Barreto, Luciana Mello, Wilson Simoninha, Pedro Mariano, Patrícia Coelho, Vanessa Jackson, Sônia Rosa, Uri Caine, entre outros:
“ Isto é a parte mais legal de ser compositor, de você mexer com arte, porque não é só o compositor que tem este poder...Muitas vezes nem é só o artista...Muitas pessoas que se envolvem que possam mudar a vida de outra pessoa como artistas, pensadores, religiosos, professores, políticos... Acho que até muitos trabalhadores que nem se dão conta de o quanto podem mudar a vida de muita gente... Acho que todas estas pessoas quando se dão conta disto acabam descobrindo uma sensação muito especial, e desde que eu comecei a compor... Eu comecei a compor muito cedo... Com 13 anos de idade...Mas só comecei a ter minhas músicas gravadas mesmo a partir dos 21 ou 22 anos de vida...E eu comecei a perceber assim que as vezes músicas que eu faço, muitas vezes sem a menor intenção de mudar a vida de ninguém, simplesmente usando meu coração, minha alma, pra fazer uma canção... E de repente esta canção chega no ouvido de alguém de uma forma que mude a vida de uma pessoa...Mude a forma dela pensar, a forma dela agir... Ou que traga um sentimento pra ela que seja determinante na vida dela... Eu comecei a perceber que este é um poder muito grande e ao mesmo tempo uma responsabilidade também, porque você começa a entender que profissões que mexem com o público, e pessoas que tem este poder de se comunicar com este público tem que tomar cuidado porque não é somente o que você pensa... E o que você pensa e o que você comunica através do seu pensamento, ao mesmo tempo que é muito legal, é também de até certo ponto assustador, porque você fica com esta impressão de que você tem que ter muito cuidado com aquilo que você pensa, com aquilo que você fala...Com aquilo que você transmite ao público porque você pode agir de uma maneira ou de outra em relação a aquilo que ela ouve ... Isto não é só com o artista , e com várias pessoas, mas com a gente acaba sendo potencializado, porque através de uma canção você pode levar uma pessoa a vários sentimentos.... Pra mim é incrível, é mágico saber, por isto que eu me emociono muito com relatos de outras pessoas que vem falar de minhas canções porque geralmente são histórias determinantes na vida destas pessoas... Quando eu faço uma música, claro que eu tenho a consciência de que esta canção pode emocionar, pode levar pessoas à lagrimas ou aos risos, mas não consegue ter a noção exata do quanto vai mudar a vida da pessoa, pessoas comentando que iniciaram um relacionamento por causa de minha música minha, ou até que terminaram ou através de uma decisão muito acertada após ouvir uma música minha... Então fico até emocionado com este tipo de relato... Que as vezes a gente vê que o mundo é realmente complicado e vão perdendo esperanças... Até eu como pessoa perco as esperanças também as vezes em algum tipo de situação... E as vezes uma canção pode mudar esta atitude... Então eu fico sempre muito feliz quando consigo ver que uma canção minha acabou mudando a vida de alguém... “
Ainda consciente da admiração que sabe que recebe de muitos fãs, Jair teve que encerrar a entrevista com sua mensagem para os fãs:
“A mensagem que passo é de agradecimento... Porque eu acho que um compositor não existe sem um ouvido...Sem seu público... E eu acho que eu só continuo com a vontade de compor estas canções por causa destes ouvidos... Por causa das pessoas que ouvem, das pessoas que se emocionam... É isto que me alimenta para continuar escrevendo minhas canções... Então só tenho a agradecer, a dizer que por estas pessoas, e por conta de outras que ainda não tiveram a chance de conhecer meu trabalho que eu faço... Ou não saber que sou eu quem faço... É por conta destas pessoas que continuo fazendo... É isto que alimenta um compositor, alimenta minha alma... Se eu conseguir continuar compondo coisas que possam emocionar as pessoas, e que possam fazê-las refletir... Pra mim já tá ai a recompensa... Pra o sentimento é muito mais que criar uma música para vender... Não tenho esta pretensão, pra mim o sentimento é muito mais artesanal... A minha recompensa como compositor é justamente saber que você chorou ouvindo alguma música minha... Pra mim o sentimento é muito mais genuíno...”

 Por Reca Silva 

Saiba mais sobre Jair Oliveira. 





2 comentários:

  1. Parabéns Reca, e obrigado Jair, continue enchendo nossos ouvidos e corações de emoção com suas canções. Bjos

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  2. Temos de beber todos os sons! Aproveitá-los na sua imensidão!

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